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Artigo 02 de abril de 2026 7 min de leitura

O que faz um psicanalista?

Algumas considerações sobre o ofício do analista

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O que faz um psicanalista?

Seguindo nos textos sobre a psicanálise é chegado o feliz momento de compartilhar algumas ideias sobre o meu ofício.

Eu diria que um psicanalista se faz com a prática clínica. É no chão da clínica que a teoria psicanalítica faz sentido e que o trabalho de escutar o inconsciente ganha consistência. Seguindo os ditames de Freud, que por volta de 1921 institucionalizou o tripé psicanalítico, complemento dizendo que um psicanalista se faz com análise pessoal, estudo teórico e supervisão clínica.

Pode parecer meio piegas, mas diria também que um analista se faz com o desejo pela análise, curiosidade e amor. Sustentar a escuta clínica é uma tarefa desafiadora por si só. Existem abordagens psicológicas mais complacentes com a presença do “eu do analista” no setting terapêutico, a escuta psicanalítica via de regra não é assim.

O compromisso do psicanalista é com o inconsciente e para estar com os ouvidos afiados, precisa esvaziar-se de si. Existem pacientes com os quais uma identificação positiva acontece e isso é esperado, afinal, para que uma análise aconteça é preciso haver transferência. Mas a psicanálise propõe um passo adiante dessa identificação, porque se agarrar irrestritamente a ela é uma forma de sufocar o potencial de transformação que uma análise tem. As histórias que os pacientes contam muitas vezes são convidativas, mas para que o sujeito elabore novas formas de falar de si é preciso de um certo grau de abandono da sua própria narrativa. A análise anda quando se tem espaço suficiente para que o paciente se confronte com suas estranhezas e para que esse espaço seja possível, é fundamental que a transferência não seja apenas uma questão de identificação.

O que um psicanalista faz?

Ouve o inconsciente

Na psicanálise o eu do analista é instrumentalizado em função do inconsciente do outro. Isso quer dizer que as intervenções e interações devem ser pensadas a partir de um raciocínio clínico e não de uma relação afetuosa; Isso não é uma condenação a fazer uma cara blasé e falar repetidamente “hmm fale mais sobre isso” e nem um convite à dizer que a sua vida também está uma merda. Apenas quer dizer que o analista deve se ocupar mais com o inconsciente e menos com a satisfação que seu eu pode ter fazendo vínculos. (a não ser que isso tenha algum valor clínico)

Ouvir o inconsciente é como pescar ideias: você senta e espera. A prática lhe permite ser mais sagaz, saber onde jogar o anzol. Mas ainda assim, isso não é uma garantia que seu analisante vai entrar em livre associação e que uma análise decorrerá. Existem pessoas que chegam prontas e desejantes de uma análise e existem pessoas que precisam aprender a elaborar. Eu diria que ouvir o inconsciente muitas vezes passa por encantar a pessoas com suas próprias histórias, é um trabalho de desenvolver uma espécie de curiosidade e sensibilidade às vozes que vem de dentro.

O percurso de uma análise passa por se deparar com a estranheza(isso, id) há dentro de si, o ofício do analista é acompanhar o processo de escuta do inconsciente e oferecer algum suporte para que a angústia de desconhecer-se não seja aniquiladora. Conduzir uma análise demanda sensibilidade porque não há uma medida exata de quando ser mais ou menos analista, excesso e ausência podem colocar a análise em risco.

Lida com sofrimento psíquico

Geralmente as pessoas procuram um psicólogo/psicanalista quando estão passando por algum tipo de sofrimento psíquico; Aquele incômodo antigo, como uma experiência de violência, que por mais que o indivíduo se esforce, insiste em retornar no presente. Ou um intempérie da vida, algo que acontece de aterrador, como a súbita morte de alguém, um golpe que não pôde ser premeditado e que portanto, se define como trauma.

A psicanálise chama de trauma aquilo que o aparelho psíquico não pôde simbolizar. Para a psicanálise as experiências traumáticas que não encontram condições de virar palavra retornam como sintoma. Frente ao trauma, uma das coisas que o analista faz é auxiliar no processo de simbolização do sujeito. Todo tipo de expressão é válida e simbolizar é o que torna tolerável a angústia da experiência humana. Na clínica psicanalítica o processo de simbolização costuma acontecer por meio da palavra e com ela fala-se do que faz sofrer, do mal estar, do incômodo, e de tudo aquilo que precisa ganhar um sentido.

Em suma, diria que o ofício do analista é auxiliar a transformação da angústia em discurso, escutando o que o sujeito diz quando lhe faltam palavras para dizer do seu próprio desamparo.

Quando eu me tornei analista

Depois de pegar meu CRP e poder iniciar oficialmente a clínica enquanto psicólogo, minha primeira grande dificuldade foi meio que gramatical: Como nomear essa clínica? Seria eu um psicanalista? NÃO, JAMAIS! Até então eu cultivava um certo ranço de psicanalistas, por imaginar que para ser psicanalista eu precisaria ser: Ortodoxo, duro e quadrado, neutro e insosso, tecnicamente implacável, que não poderia me permitir sorrir e brincar. Minha clínica, mesmo que incipiente, já esboçava ser diametralmente oposta a isso.

A confusão estava posta e para resolvê-la foi preciso trabalhar. Pensar, falar e fazer coisas, ir a lugares (virtuais muitas vezes) e conhecer pessoas. A clínica vai acontecendo na medida em que a gente se investe nela, na minha pelo menos tem sido assim. 

Encontrei um bom analista, passei por alguns grupos de discussão de caso, paguei supervisão em grupo até que me inscrevi e no instituto de Gradiva de psicanálise. Isso foi um ponto de virada na minha clínica psicanalítica.

Em Gradiva encontrei uma transmissão meticulosa e honesta da psicanálise. As professoras que pude conhecer até então, não são apenas excelentes acadêmicas, mas também gente que faz clínica psicanalítica à vera; Com a Naira leio Freud de ponto a ponto e me encanto com seus riquíssimos parênteses que contextualizam autores clássicos da filosofia e movimentos relevância para psicologia. Com Pedro vou lendo capítulos de Jacques Alain Miller e despretensiosamente fazendo um rico arranjo da teoria e prática de Lacan; E com Andréia venho aprendendo a fazer clínica, a ter mais cuidado com os significantes e intervenções. Eventualmente ela pega no meu pé por causa das minhas gírias e me aconselha a levar alguma coisa para minha análise, mas no fim do dia tudo fica bem.

Tudo citado até aqui me ajudou na trajetória de me tornar analista, mas o que foi decisivo nesse processo foi perceber que muitas das angústias que eu carrego são angústias comuns e que elas não me fazem mais ou menos analista.

Ih professora, o nó borromeano também te soa estranho? Sério que vocês não são psicanalistas 100% do tempo em uma análise? O paciente entra e sai de análise? Isso é normal? Então a gente faz pouca psicanálise mesmo né? Será que esse tal de inconsciente existe mesmo? É comum ficar com esse sentimento de que coisa eu estou fazendo Mesmo com 30 anos de clínica?

Minha clínica se encontra na sua fase mais leve, hora as coisas correm meio soltas e saem um pouco do lugar, mas o trem bala nunca sai do trilho. Às vezes eu tiro férias de ser psicanalista, em respeito pelo processo terapêutico dos meus pacientes ou pela minha falta de energia para sê-lo. Os atendimentos no entanto nunca deixam de acontecer a não ser que algo extraordinário aconteça, seja um show do my chemical romance ou a internação da minha avó.

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Matheus Mello
Autor

Matheus Mello

Psicólogo clínico especializado em psicanálise e psicodinâmica do trabalho. Formado pela Universidade Federal Fluminense. Atendimento online e presencial em Rio das Ostras.

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