Psicologia em tempo de algoritmos
O surgimento do computador pessoal e a possibilidade de compartilhar informações embalaram o início do novo milênio com o desejo de construir coletivamente um ciberespaço para todos. A verdade é que o futuro saiu um pouquinho diferente do que teóricos como Pierre Lévy podiam imaginar.
O desenvolvimento dos smartphones e das redes sociais contribuíram para profundas transformações no tecido social e no campo do trabalho. Nossos dados passaram a ser um valioso ativo para as big techs, passamos a cedê-los voluntariamente e não só isso, passamos também a trabalhar para essas empresas. Eu diria que o mundo hoje é meio cyberpunk: high tech low life.
Ao smartphone, não por acaso, nossa sociedade passou a delegar as mais diversas tarefas: Ser chupeta de criança, ferramenta de trabalho, fonte de notícias e entretenimento, gps, carteira, álbum de fotos… e por aí vai.
No campo do trabalho pode-se pensar que lidar com essa tecnologia se tornou incontornável para quase todo profissional: quem não tem um zap?
Há uma extensa e recente produção na sociologia do trabalho onde cunha-se o termo uberização para explicar o fenômeno do trabalho de plataforma. A uberização é apenas um estágio de um longo e sistemático processo de precarização nas condições de trabalho.
No Brasil, por exemplo, observa-se uma retração na oferta de vagas de trabalho em regime clt, aumento das terceirizações, pejotização e trabalho de plataforma.
Nesse cenário observa-se o crescente discurso do empreendedorismo de subsistência. Seja seu próprio patrão! Faça seu próprio horário! Você não vai ficar desempregado se inventar seu próprio emprego. É cruel mas infelizmente essa é a tônica do momento. Pra esmagadora maioria da população não sobra muita coisa além de se contentar com um salário mínimo, trabalhar para uma plataforma ou empreender.
Transformações sociais e psicológicas
O laço social também passa pelos seus desafios: há um entendimento que as redes contribuem para que nos tornemos indivíduos atomizados, afastados da cultura e da pluralidade que a vida pode oferecer. Isso é devastador para as subjetividades, principalmente das pessoas mais novas, que não tiveram a oportunidade de conhecer um mundo diferente.
Não se trata de nostalgia, o problema é que as redes têm ocupado um papel significativamente grande no processo de subjetivação. E até estaria tudo bem se rede social fosse o sinônimo de gente se conectando e trocando ideias, mas o problema é que as redes sociais não são isso.
As redes atuais não se preocupam em estimular seu interesse e curiosidade pelo mundo, elas querem que você continue scrollando, e descobrindo o mundo a partir do seu algoritmo.
Isso é perigoso porque submete pessoas a interesses corporativos e cruel porque contribui para que a vida (que já não é um morango) seja ainda mais desinteressante e sem sentido.
Esse me parece um problema contemporâneo latente. Estamos todos pobres de representações e enfiados na atual lógica de consumo e produção até o último fio de cabelo. Quem é um pouco mais velho consegue até se lembrar de quando a vida foi diferente. Mas já temos gerações inteiramente nascidas e criadas nesse zeitgeist.
O que não quer dizer que a juventude não crie seus próprios movimentos. Outras formas de sociabilidade estão emergindo; recentemente rolou um protesto de crianças no roblox, achei maior barato isso. Ainda sim me preocupa o fato da internet mediada por algoritmos ser a maior janela pela qual a garotada olha o mundo.
Precisamos falar criticamente e sobretudo produzir novas formas de ocupar e se relacionar com as redes. Entendendo que elas são canais de comunicação incontornáveis e nós, temos a inventividade suficiente para produzirmos algo realmente bom com essas ferramentas.
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