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Artigo06 de março de 20266 min de leitura

Qual a origem da filosofia?

A filosofia dos Pré socráticos até Aristóteles

filosofiapsicologiablogciênciacomunicação

Uma das gratas surpresas que tive ao chegar na Universidade Federal Fluminense, foi esbarrar com o professor Marcio Miotto, que nos idos de 2013 dedicava um semestre inteiro à árdua tarefa de ensinar como a psicologia surgiu. Márcio era meticuloso em suas explicações e além de nos acompanhar ponto a ponto daquela complexa história, nos ensinou sobre a pluralidade de pensamentos e o caráter múltiplo da Psicologia.

Eu não poderia começar esse um blog de psicologia e psicanálise por outro lugar que não na filosofia, pois, ao meu ver, ter ao menos uma noção de como surgiu a filosofia e as outras ciências é fundamental para um bom psicólogo clínico. Na minha experiência esse conhecimento ajudou a compreender e lidar melhor com a multiplicidade de ideias da psicologia e apaziguou, mesmo que momentaneamente rs, um pouco da angustia que é estudar objetos tão abstratos.

Como fonte para esse texto usei o livro de Danilo Marcondes: Iniciação à história da filosofia - dos pré-socráticos a Wittgenstein

Surgimento-da-filosofia-na-grécia-antiga

Ao longo da história humana muitos povos se ocuparam de produzir conhecimento sobre o mundo e fatores históricos como guerras, desastres ambientais, organização social, colonizações e intercâmbio cultural, contribuíram para que o legado de certos povos perdurasse e o de outros não. Povos como os: assírios e babilônios, chineses e indianos, egípcios, persas e hebreus, são conhecidos por uma rica tradição cultural e uma visão de mundo profundamente atravessada por mitos.

A tradição oral desses povos explicava os fenômenos da natureza de forma sobrenatural, seus mitos explicavam os mistérios postos pela realidade com base em crenças e mensagens que só poderiam ser acessadas e decifradas pelos seus sacerdotes e magos.

Por volta do século VI a.C a Grécia antiga passou por importantes mudanças socioculturais: o movimento de secularização caracterizado pela retração da religião e avanço da política, a pluralização da sua cultura motivada pela expansão do comércio marítimo e o intercâmbio e desenvolvimento de relações amenas entre outros povos da região.

Teoriza-se que esse contexto tornou possível que uma nova forma de pensar surgisse, os mitos que antes explicavam o mundo passaram a ser relativizados, abrindo espaço para o desenvolvimento de outras teorias para explicar o mundo. Surge então lógica de pensamento naturalista, que em contraposição ao pensamento mítico, postulava que a explicação do nosso mundo reside nele próprio, é de ordem física e não de ordem sobrenatural.

Ao estágio inicial da filosofia se deu o nome de período pré-socrático e abaixo estão destacados alguns pontos fundamentais da filosofia grega antes de Sócrates.

A filosofia a partir de Sócrates

Talvez aqui seja um bom ponto para lembrar que inovações culturais estão sempre atreladas a um contexto histórico e sociopolítico. O desenvolvimento econômico da Grécia ocasionou a necessidade de lidar com a diversidade de crenças, costumes e ideias, pois aquela região se tornara um importante entreposto comercial. Os gregos desenvolveram a democracia como uma ferramenta de conciliação de interesses, tornando-se proeminentes na arte da política. A sociedade grega abriu mão do uso da força e de privilégios e passou a deliberar suas decisões em assembleias, portanto os cidadãos gregos tinham o direito de votar e a participação na vida política era uma virtude tão importante quanto a filosofia.

O pensamento socrático esteve profundamente atravessado pela questão ético-política. Sócrates foi acusado de desrespeito às práticas religiosas e corrupção da juventude, seu julgamento teve clara motivação política, pois ele discutia e questionava os valores e atitudes da sociedade de sua época. Em sua defesa, não recuou em suas colocações, ironizou o júri e declarou que as acusações eram coerente com o que pensava. Foi sentenciado a morte, optou por não se exilar e morreu como cidadão ateniense.

Sócrates desenvolveu um método de análise conceitual, que consistia em questionar o senso comum, a cultura e as opiniões pessoais. O famigerado: só sei que nada sei é justamente sobre isso, um exercício de reconhecer sua ignorância frente às coisas mundanas e uma tentativa de conhecer a realidade a partir da razão.

Platão deu um importante passo adiante na filosofia Socrática, quando questionou a possibilidade de acessarmos a realidade por meio da razão. A idéia que estava em jogo era: Que os homens, por mais que façam um bom uso da razão, ainda sim estão submetidos aos seus desejos(experiência sensível) e que isso os afasta da verdade. Sua filosofia defendeu o desapego do mundo sensível, para que fosse possível ascender ao mundo das ideias. O amor platônico é justamente isso, um amor que a despeito da realidade, só existe nas ideias de quem ama.

A filosofia de Aristóteles se colocou como uma crítica ao pensamento de Platão na medida em que rejeitou o dualismo de Platão (mundo sensível x mundo das ideias). Para Aristóteles, as formas não existem em um plano separado, mas nas próprias coisas. Se pensarmos em uma gatinha chamada Sophie, Aristóteles diria que ela é composta por matéria e forma: matéria porque possui características individuais que a tornam única, e forma porque participa da estrutura comum que faz dela um gato. Diferentemente de Platão, essa forma não está em um mundo transcendental, mas na própria Sophie. A mente humana é capaz de abstrair essa forma a partir da experiência sensível.

Essas são apenas algumas contribuições dos gregos e parte do motivo pelo qual a Grécia é considerada o berço da civilização ocidental. Dos gregos herdamos a filosofia e a partir dela inventamos todas as outras ciências.

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Matheus Mello
Autor

Matheus Mello

Psicólogo clínico especializado em psicanálise e psicodinâmica do trabalho. Formado pela Universidade Federal Fluminense. Atendimento online e presencial em Rio das Ostras.

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